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Poder de compra

Saturday February 23, 2008

Quando viajo para o exterior, rola aquela dúvida: o que vale a pena levar do Brasil e o que vale a pena comprar lá?

Pela minha modesta experiência (NY e Sydney), posso dizer que a única coisa que é de fato mais barata no Brasil é comida. Todo o resto – cosméticos, roupas, eletrônicos – você acha mais barato no destino da viagem.

A gente acha que a 25 de março é o paraíso, conexão direta com o Paraguai e garantia de preços baixos. Mas, no caso de Sydney, estar às portas das manufaturas (China, Índia, Tailândia, Coréia, Malásia) é o que realmente garante o preço menor.

Outro dia fui numa dessas lojinhas de quinquilharias aqui em Sydney, similares às de R$ 1,99 do Brasil, e fiquei boba de ver como as coisas são baratas.

Eu acho essa proporção de preços totalmente bizarra, considerando o poder aquisitivo do cidadão médio brasileiro e o do estrangeiro.

 

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Pescaria

Thursday February 21, 2008

O povo da firma onde o Lucas trabalha organizou uma pescaria hoje. Fui convidada e tive a oportunidade de fazer uma deep sea fishing (pescaria em alto mar).

Pegamos um barco em Lavender Bay (parte norte de Sydney) que nos levou para fora da baía. Já adianto que eu não peguei nenhum peixe.

Desnecessário mencionar o enjôo. Sério, nunca me senti tão mal na minha vida. O horizonte balançava, as águas giravam, minha cabeça rodopiava. Tinha horas que eu achava que não ia aguentar. Junta-se a isso pressão baixa, que me fazia querer desmaiar e vomitar ao mesmo tempo.

Isso tudo começou logo quando chegamos ao lugar da pescaria, fora da baía. E pensar que teríamos mais quatro horas pela frente naquele balanço horrendo tampouco ajudava.

Seis pessoas entre os dez do grupo acabaram vomitando. Ter tomado dois comprimidos de Dramin não ajudou em absolutamente nada.

Agora, oito horas depois, ainda sinto as coisas rodando e um mal-estar incômodo.

Quem sabe daqui 20 anos eu sinta vontade de ir deep sea fishing de novo.

Lucas pegou um peixe grande, pelo menos o jantar vai ser bom.

 

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Chegada a hora

Friday February 15, 2008

Volto a terrinha daqui duas semanas. Saudade monstro da familia e dos amigos. Da comida. E de Sao Paulo, claro.

Ontem a noite, no trem, distraida olhando pela janela, reconheci paisagens de Sao Paulo e, por alguns segundos, tive certeza de que eu estava la.

As vezes comeco a estranhar o ingles e o portugues comeca a ficar mais claro na minha cabeca. Acho que estou me preparando para voltar deveras.

Acho que mais um turning point esta chegando ao fim. E a sensacao de satisfacao por mais uma viagem feita permanece. Mas agora so quero um pouco de raiz e rotina.

Ja aviso: estarei a procura de emprego assim que voltar a Sao Paulo.

 

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Jorge

Tuesday February 5, 2008

Dos seis aos 10 anos, estudei na escola municipal Othelo Franco, no Tatuapé, ao lado da praça Sílvio Romero. A Othelo era uma escola pequena, com cerca de duas turmas de 35 alunos por série, da 1ª à 8ª. A maioria dos alunos morava nas redondezas e, apesar de ser uma escola pública local, não era das piores. Havia algumas crianças de família de classe média, como era meu caso, mas a maioria era bastante pobre.

Eu gostava muito de estudar lá. Havia uma coisa chamada “aula vaga”, que acontecia quando algum professor faltava – não existia nenhuma política de substituição para esses casos. Se a aula vaga acontecia no primeiro turno, antes do recreio, geralmente íamos para o pátio jogar bola e conversar. Se acontecia no segundo, éramos dispensados. Tinha dias que tínhamos uma ou duas aulas (eram seis no total) e depois íamos embora.

Eu não lembro de haver nenhum tipo de bullying na Othelo. Claro que existia o grupo dos mais descolados, e a idéia de turma era bastante explícita – não raro havia o “pau”, que era quando dois grupos combinavam uma briga depois da aula. Pergunta comum era: “você vai ficar para o pau?”.

Teve uma vez que uma menina do Piauí veio estudar lá no meio do ano. O sotaque, no primeiro momento, causou um certo preconceito. Quando ela falava em público, respondendo a alguma pergunta da professora, ouvia-se uma gargalhada generalizada. Não demorou, claro, para que ela ficasse intimidada. Ela parou de ir às aulas. A coordenadora da escola veio falar com a gente e pediu para a gente não ser um bando de idiotas e fazer amizade com ela. Dito e feito. Pouco tempo depois, ela foi enturmada e, surpresa, foi provavelmente uma das pessoas mais divertidas que eu conheci na infância.

Mas, na 5ª série, teve um menino que foi diferente. Jorge era branquinho, quase roxo, com os cabelos negros encaracolados. Usava óculos fundo de garrafa e amargava muitos quilos extra. Mas não era só isso que o tornava alvo. Ele era estranho (a começar pelo seu nome de velho).

Jorge andava sempre com a cara amarrada. Se isso é consequência da gordura das bochechas, não sei. Mas ele tinha cara de poucos amigos. Claro que isso tudo era receita para se tornar o excluído da turma.

Jorge causava estranheza até nos professores. Certa vez, na aula de Português, requisitado pela professora para ler um dos textos do livro, ele desatou a ler uma “releitura” que ele havia feito do texto original. Basicamente contou a mesma história, mas com seu próprio estilo literário. Ele tinha essa coisa: de repente se desprendia de sua carranca e, ao falar em público, mostrava uma voz e desprendimento invejáveis. A professora, estupefata, o recriminou e pediu para outra pessoa ler.

Coitado do Jorge. Durante as aulas era comum ouvir do fundão xingamentos ou gracinhas à sua pessoa. Mas ele queria se mostrar superior e, ao invés de responder ou simplesmente ignorar, ele arrancava uma folha de seu caderno, amassava em uma bolinha e… enfiava na orelha. Era um atestado de que ele não estava ouvindo mesmo.

Na hora do recreio, em vez de se recolher perdedor a um canto, ele dava a cara a bater: ia no meio do pátio e deitava. Uma perna flexionada e a outra cruzada, enquanto olhava para o céu e pensava com seus botões, ouvindo música no seu walkman. Não dava cinco minutos, e lá vinha uma horda bárbara encher o saco. A brincadeira preferida era apertar o peito gordo do Jorge. Obviamente eu não aprovava tais brincadeiras e lembro, com horror, das expressões de satisfação das pessoas que o sacaneavam.

Jorge não durou na Othelo. Provavelmente não passou mais de um mês lá. Ele era de fato uma pessoa fora do comum. E me ressente um pouco perceber hoje um certo gênio incompreendido por trás de sua estranheza.

 

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Kentucky Fried Chicken

Saturday February 2, 2008

Hoje estava morrendo de vontade de comer frango. Confesso que não sou a maior entusiasta da carne, mas às vezes acontece. Estava andando no centro de Sydney e não havia nenhum lugar para comer um franguinho rápido e barato, exceto o KFC.

Por algum motivo (que eu imagino ser a falta de paixão do brasileiro por frango), o KFC não pegou no Brasil. No entanto, a rede de fast food é bastante popular pelo mundo. Aqui na Austrália, o KFC compete com McDonald’s e Burger King/Hungry Jack’s no setor de comidas super saudáveis.

Aí, claro, mesmo sabendo que eu iria me arrepender, resolvi enfrentar o frango frito de Kentucky. Não me levem a mal: o frango é saboroso, macio, e vem coberto de uma casquinha crocante muito gostosa. Mas é azia e queimação por três dias e três noites na certa.

Existe toda essa comoção contra o McDonald’s, que não é bom para a saúde e tal. Mas o KFC é dez vezes pior. Um atentado à saúde pública, diria. Os pedaços de frango todos vêm com a pele, empanados numa massa grossa frita encharcada de gordura. Chega até a pingar (isso não é um exagero). Deixa o hambúrguer do Mc no chinelo. Como diria o Lucas, eles deveriam instalar duchas nos restaurantes para você lavar o óleo que escorre pelo rosto, mãos e braços.

Isso acompanhado de fritas, purê artificial com caldo de carne e uma saladinha de repolho para achar que é saudável.

Você fica com dor na consciência quando come coxinha, pastel e calabresa? Agradeça que só existe uns poucos KFCs no Brasil (todos no Rio).

 

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Leituras

Friday February 1, 2008

Minhas últimas aquisições literárias foram feitas durante minha viagem pela costa leste da Austrália: Crime e castigo (Dostoievsky), Laranja mecânica (Anthony Burgess) e Hell’s Angels (Hunter S. Thompson).

Assim como os filmes que tenho assistido, os livros são aqueles que sempre quis ler.

Tento me ater aos livros cuja língua original é o inglês (nada como ler o original), mas outro dia vi uma promoção de clássicos por 6 dólares australianos (algo como 8 reais) cada e resolvi comprar Crime e castigo.

Achei sensacional. O livro tem pouquíssima ação, as mais de 400 páginas relatam poucas semanas, mas os diálogos e fluxos de consciência são descritos com um nível de detalhamento incrível.

O personagem principal, Raskolnikov, é um cara comum, mas que acaba sendo afogado pelos próprios pensamentos e idéias (apesar de eu achar seriamente que ele sofre é de esquizofrenia). O andar da história é bastante tenso e, dada a verossimilhança da descrição das situações, não raro me vi prendendo a respiração ou arregalando os olhos.

O Laranja mecânica é um caso à parte. Burgess utilizou uma linguagem baseada em gírias vindas do russo, que ele chama de nadsat. Isso torna a leitura bastante lenta e complicada, até para quem tem inglês nativo. Imagina a pobre coitada aqui. Fiquei com severa dor de cabeça após ler a primeira página e desisti. Primeiro preciso comprar meu dicionário russo.

Agora estou lendo Hell’s Angels, sobre os motoqueiros que surgiram no meio do século passado na Califórnia. Não achei o texto grande coisa, é apenas uma coleção de relatos, dados e comentários do Hunter Thompson sobre o movimento. Notável trabalho jornalístico, no entanto.

Diferente de outros jornalistas, que alimentavam o mito com mentiras e exageros, Thompson foi lá, ficou amigo dos caras e mostrou que a imagem dos Angels na imprensa não tinha nada a ver com a realidade.

E, claro, não falta ao livro aquela pitada de absurdo que eu adoro, tão comum na literatura americana recente.

 

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