Wednesday March 1, 2006
Feriadão de trabalho e filmes. O carnaval inexiste para mim. Acho que a única vez em que viajei nessa época foi no ano passado. E, mesmo assim, me limitei a ser alvo de farinha e bexigas de água nas ruas precárias de Jujuy.
(eu JURO que não sou tão amarga quanto esse parágrafo me fez parecer)
Enfim, assisti a alguns filmes:
— Capote
O filme mostra como a apuração e pesquisa de um dos maiores livros-reportagem de todos os tempos afetou a vida de Truman Capote. O livro em questão é A sangue frio, que relata o assassinato de uma família, aparentemente sem motivos, no Kansas, Estados Unidos.
A irritante atuação de Philip Seymour Hoffman está sensacional. E o mais legal é que a imagem representada no filme é exatamente a que eu imaginei ao ler as descrições do livro: a propriedade dos Clutter, os cômodos da casa, a cela de Perry, o próprio Perry. Fantástico!
— A casa de areia e névoa
Uma mulher tem sua casa leiloada por engano. O comprador é um imigrante iraniano e sua família. Ela reivindica a devolução da casa, que é tudo o que ela tem, mas ele nega.
Desgraça pouca é bobagem. Gostei, porque mostra a ambigüidade das pessoas, as dificuldades de fazer escolhas e a tentativa de ser feliz ameaçada pelo medo de ser egoísta.
— Kill Bill 2
Kill Bill é fantástico. O primeiro é ótimo, com toda aquela violência forçada, o ódio desmedido e as tiradas grotescas. Mas a história da “noiva” raivosa está mesmo no segundo.
Beatrix Kiddo continua a jornada em busca do cadáver de Bill. Flashbacks revelam sua história e põem em xeque suas motivações.
Ressentimentos e, de novo, todo mundo tentando ser feliz — seja através da realização, seja através da vingança.
— A outra face da raiva
Chatíssimo. Seu único valor é mostrar a dificuldade dos relacionamentos em momentos de crise. Achamos que temos o direito de magoar os outros quando estamos mal. Enredo meio bizarro e totalmente superficial no momento em que devia se complicar.
— Histórias mínimas
Toda vez que assisto a um filme argentino é uma boa surpresa. Neste, as histórias de três viajantes solitários se cruzam nas estradas da Patagônia. Um velho procura seu cão fugitivo, um homem tenta conquistar uma cliente e uma moça vai a um show de televisão. Fotografia linda demais. E uma certa tristeza hilária, que beira a pena.
— Mulher-Gato
Hã... Halle Berry estava gatinha como Catwoman, vai.
Friday February 24, 2006
Na última terça-feira, o U2 voltou ao estádio do Morumbi para alucinar milhares de brasileiros, como o fez em 1998 na megalomaníaca turnê Pop Mart.
Se o primeiro show, no dia anterior, foi transmitido em cadeia nacional pela Rede Globo, o segundo foi a “festinha particular” do U2 e dos fãs, como definiu Bono logo no início da apresentação.
O vocalista estava mais à vontade (apesar da voz rouca). E a incômoda encenação, típica de grandes espetáculos, deu lugar a uma espontaneidade que traz a autêntica redenção dos fãs mais fervorosos.
O setlist teve hits da última fase da banda, que compreende os álbuns All that you can’t leave behind e How to dismantle an atomic bomb. Músicas como Elevation, Vertigo e Beautiful day ecoaram alto no estádio.
Quem acompanha a banda há mais tempo teve o que merecia por esperar tantos anos para vê-los ao vivo. Além dos hits de rádio, como I still haven’t found, Sunday bloody sunday e One, a banda presenteou o público com canções menos conhecidas, como The first time (do obscuro álbum Zooropa, 1993), Desire e Love rescue me.
Desire, aliás, não estava no setlist oficial do show. A música foi tocada em homenagem à fã Desirê, que foi puxada ao palco pelo Bono. Tão não estava que ele errou toda a letra.
O quarteto irlandês ainda deu uma amostra do que foi a fase de ouro da banda com uma seqüência matadora de hits: One, Zoo Station, The Fly e Mysterious Ways – todas do CD Achtung Baby (1991). Tudo isso com direito às imagens de televisão da turnê Zoo TV.
A saidera não teve 40 (how long to sing this song?), como é de costume. Fecharam o set com a balada All I want is you, emendada com uma palhinha de Love rescue me – essa, só para os fãs mais antigos.
Friday February 24, 2006
Fiz um diário da minha viagem à Argentina, em janeiro de 2005. Hoje, por acaso, o encontrei e me diverti lembrando de passagens dessa encantadora empreitada. Seguem:
1. “Vivo muito mais o que se passa aqui dentro do que o que acontece no mundo lá fora”.
2. “Todas as pessoas do mundo têm por volta de 30 anos”.
3. “A vida tenta ser um todo coeso, mas a verdade é que nos desdobramos em mil facetas, e cada uma se compõe com seu ritmo, nas suas circunstâncias que lhe cabem, nas oportunidades que surgem”.
4. “Nada como ter um rumo na vida”.
5. “Tenho pensado muito no horror vacui. Vejo que as pessoas têm muito disso. Elas simplesmente têm que estar fazendo alguma coisa. Não conseguem parar para pensar, para contemplar, para conversar esterilmente sobre um assunto”.
6. “Nada mais estabelecido do que pegar um ônibus”.
7. “E achei que não deveria mais me prender a nada da terrinha”.
8. “Gosto de conversar com ele. Então eu fico como que completamente contemplativa observando-o falar. Poderia ficar horas assim”.
9. “Eu sou um poço de frustrações”.
10. “O engraçado foi o consolo que ele me deu: ‘todo mundo se fode; você vai continuar se fodendo para sempre’”.
11. “Meu deus, tem um iceberg no meu suco de laranja”.
12. “Pena que não nos aprofundamos mais no assunto. Falamos sobre ser moral-less (sim, usamos esse termo)”.
13. “Tenho fobia a cidades pequenas”.
14. “Tive que me trancar no banheiro para rir”.
15. ”É engraçado como acontece merda nas nossas vidas e, mais engraçado ainda, como certas coisas aparentemente dão errado para, no final, convergir em um resultado muito melhor que o esperado”.
16. “E ele me deixou um conselho bem frisado: ‘choose your guys’’”.
17. “Passei nervoso hoje à tarde. Tanto que resolvi comer no Mc Donald’s”.
18. “Estou aprendendo a perceber qual é o tempo certo das coisas”.
19. “Hoje fui de bicicleta até um lugar lindo. 12 Km forçando a virilha, porque o banco era muito alto. Mal consigo mijar”.
20. “Quero mandar essa viagem para a puta que pariu”.
21. “Os italianos me deixam louca”.
22. “A redenção virá quando eu descer do ônibus no Tietê e sentir que não estão me olhando”.
Saudade de sumir.
Thursday February 23, 2006
1. Muitas coisas acontecendo de uma vez. Nunca fui boa em realizar várias tarefas ao mesmo tempo. Mas nunca é tarde para aprender.
2. Tive que cancelar meu curso de bartender. Agora é só torcer para reembolsarem o valor total já pago. Mas foi por um bom motivo. Ademais, tenho o resto do ano para tentar novamente.
3. Franz Ferdinand do caralho. Alex Kapranos é meu homem definitivo (esqueçam aquelas coisas de arquétipo italiano e tal). Ele é o cara que eu queria ver todo dia lá em casa. É charme demais para uma pessoa só. Olha o garotão aí do lado, QUE HOMEM!
4. Show do U2 competente. Queimaduras de terceiro grau (minha pele está tão repuxada que, quando eu pisco o olho, meu ombro dói), um hematoma gigante no joelho, dores musculares pelo corpo todo e uma panturrilha mijada (e NÃO foi com a minha própria urina). Foi tão bom o show que o saldo ainda foi positivo. Não me venham com críticas sobre a politicagem do Bono (é, ele é mala, eu sei) ou sobre a previsibilidade das músicas do U2 (assumo que o último CD é fraquinho fraquinho) — como se a gente fosse racional num show de rock. Eu, por exemplo, costumo virar um monstro.
Tuesday February 14, 2006
Ontem preparei um molho para capeletti, que foi provavelmente o pior molho que eu poderia preparar na minha vida. Comemos no almoço e o que restou tive de jogar dentro de um saco de supermercado e depois fechá-lo hermeticamente, lançá-lo no saco de lixo e pôr pra fora de casa. Porque, de tão horrível, estava me dando náuseas.
Nunca havia feito uma comida realmente ruim. Agora que já conheço o meu limite (no extremo negativo, obviamente), acho que posso me aposentar da minha incipiente carreira gastronômica.
Monday February 13, 2006
Sábado assisti ao famoso e controverso Brokeback Mountain, de Ang Lee. Sala lotada, muitos casais de meia-idade, alternativozinhos em geral e os infames e inevitáveis grupos de adolescentes.
O que dizer do filme? Adorei. Não saberia ponderar uma crítica embasada, tendo como pressuposto o que os mais exigentes esperam do filme: uma bandeira pelos direitos gays.
Sei lá. Claro que o lado político da coisa é bastante importante (a intolerância social que mata…), mas o que mais me encantou foi mesmo o âmbito pessoal da coisa.
A velha história romântica do amor impossível transferida a uma situação bastante real e muito mais difícil que um caso de Romeu e Julieta. A convicção do amor, intocável no casal hétero, esbarra no medo de si próprio no caso de Ennis Del Mar e Jack Twist.
E, ademais, todos as mágoas de quando se ama alguém. Todas as mágoas das coisas que são ditas quando se ama alguém.
Ennis Del Mar: Vou te dizer isso uma vez, Jack fuckin’ Twist, e eu não estou brincando. O que eu não sei – todas as coisas que eu não sei – poderiam te matar se eu viesse a saber. E eu estou falando sério.
Jack Twist: Tá, segura essa então, e eu vou falar só uma vez!
Ennis Del Mar: Fala!
Jack Twist: Nós poderíamos ter uma vida boa juntos! Uma porra de vida realmente boa! Ter um lugar nosso. Mas você não quis, Ennis! E agora tudo o que temos é a montanha de Brokeback! Tudo foi construído sobre isto! É tudo o que temos, cara, tudo. Então eu espero que você saiba disso, mesmo que não saiba do resto. Conte as poucas vezes em que nós estivemos juntos em quase 20 anos e calcule a porra da corda curta na qual você me mantém. E aí você pergunta sobre o México e diz que me mataria por precisar de uma coisa que eu raramente tenho. Você não tem a menor idéia de como é ruim! Não sou você... Não posso dar umas trepadas em alta altitude uma ou duas vezes por ano! Você é demais para mim, Ennis, seu filho da puta! Eu queria saber como te esquecer.
Ennis Del Mar: Então por que não esquece? Por que não me deixa em paz? É por sua causa que eu estou (sou) assim! Eu não tenho nada… não estou em lugar nenhum… Sai fora! Eu não agüento mais ficar (ser) assim, Jack.
É impossível não perceber as reações do público durante e depois da sessão. Durante, os típicos comentários estúpidos dos adolescentes. Após, opiniões totalmente opostas dos mais críticos.
Bem, de resto, linda fotografia (Wyoming é “o” lugar) e belíssima trilha sonora. Jake Gyllenhaal maravilhoso (ê, lá em casa!) no papel do adorável Jack Twist, como resistir? Nem eu se fosse lésbica.
Machuca
E, ontem, vi Machuca, de Andrés Wood. Verdade verdadeira, perdi toda a primeira metade, então não posso falar muito. Mas achei linda a parte que vi. Triste demais.
Wednesday February 8, 2006
Ultimamente tem sido aqueles dias em que eu olho pela janela e tenho medo de sair na rua por causa do sol. O céu azul azul (sempre escondendo o temporal que virá no final da tarde), o asfalto em brasa, o bafo quente, sem vento. E nenhuma sombra.
Não posso reclamar, porque, trabalhando em casa, não preciso me escaldar em ônibus lotados, ruas impiedosas ou no meu carro sem ar condicionado. Claro que em casa também tem verão (tem dias que eu nem abro a janela, tamanho é o calor lá fora), mas não me importo de parecer suada na frente da minha cachorra.
Fato é que São Paulo não tem sombra. Tudo bem que São Paulo é conhecida muito mais pelo frio do que pelo calor, mas quem mora aqui sabe o inferno que é, principalmente porque não temos a mínima infra-estrutura para enfrentar dias quentes (sem praia, sem casa de suco, sem frescão).
E aí eu me lembro de Mendoza, uma cidade ao pé da Cordilheira dos Andes, na Argentina, de clima semi-árido e precipitação até dez vezes menor que a de São Paulo. As temperaturas mínimas e máximas são levemente mais extremas que as daqui, ou seja, verões pujantes e invernos de rachar.
Fiquei quatro dias por lá, talvez não o suficiente para ver os defeitos. Porque tudo me pareceu maravilhosamente planejado. As ruas eram cobertas de árvores, uma seguida da outra, nos dois lados da calçada, de maneira a formar lindos e frescos arcos sobre as vias — alamedas e sombras por toda a cidade.
Como sustentar tantas árvores sob um clima semi-árido? Nas bordas das calçadas mendocinas, há grandes valas abertas, passeando pelas raízes das árvores e funcionando como canais de irrigação. Não vi o sistema em ação, mas uma guia local me informou que de tempos em tempos (a cada dois dias?) as torneiras eram abertas, preenchendo as valas de água.
Além disso, funcionários iam com um caminhão-pipa, periodicamente, regar as árvores nas praças, em especial as de canteiro, não beneficiadas pelo sistema de valas.
Aí eu olho para a minha rua e vejo a meia dúzia de árvores. Uma em frente de casa, outra no vizinho da frente, outra a uns 50 metros, e umas outras três no resto da rua, lá pra longe.
Não bastasse isso, vizinhos meus iniciaram uma mobilização para cortar a árvore daqui da frente (que meu pai, minha irmã e eu plantamos quando eu tinha uns 6 anos de idade). Ela está enorme e linda. O problema? Cai muita folha e flor no chão. Mas parece que desistiram da idéia, felizmente.
Tudo bem, eu não limpo a rua, talvez seja realmente chato varrer folhinhas. Mas não é possível que eles não vejam os benefícios da árvore. Às vezes a ignorância me irrita.

Prazer, Mendoza
Monday February 6, 2006
1. Aí eu cheguei em casa com a minha mãe, mas a porta da sala não abria. Tentamos com a minha chave, tentamos com a chave dela. Nada. Verificamos se todas as entradas estavam mesmo fechadas. Brincamos de McGyver, tentando resgatar a chave que estava na fechadura do lado de dentro. Escalamos paredes para tentar arrombar janelas. No final, ponderamos que seria mais barato estraçalhar a porta de vidro dos fundos do que chamar o chaveiro. E assim foi feito. Achamos um martelo perdido no quintal (coisa de filme) e mandamos ver. Limpamos a sujeira e entramos em casa, depois de mais de uma hora de suor, ao som de belíssimas canções instrumentais (que tocaram só na minha cabeça, claro).
2. Quinta fui num jantar gostoso e alcoólico (a polícia chegou e foi tudo muito tenso). Sexta fiz balada na Vila Madalena (divertido mesmo é dar apelidos para estranhos). Sábado teve festa de aniversário naipe, com o DJ Henrique, a ótima banda D-Lux e os queridinhos da Resistance (cerveja acabou rápido, mas, pelo que eu lembro, o povo estava bem alucinado).
3. Sorvete bom mesmo é o duplo de chocolate suiço e creme de leite com morango (R$ 5,90) da Cremeria Nestlé do shopping Anália Franco.
4. De perto, todo mundo é feio.