A Julia Dallora
Saturday January 4, 2003
Quinta-feira recebi uma notícia do tipo que nunca tinha recebido antes. Assim, sem esperar, um telefonema. “A Julia sofreu um acidente e morreu”. Ainda me lembro de como foi insólito, fora, fora, muito fora, de tudo. Como é que é isso? Tão de repente, tão vulnerável…
Mil lembranças vêm à cabeça, todas elas com marcas suas, que não podem ser apagadas. Aquele riso, aquela voz, aquele cabelo, aquele jeito com que fazia as piadas, aquele beijo na testa, aquele abraço – “aquele abraço”.
Lembro de quando fomos comprar sua câmera fotográfica no Anhangabaú, mês passado – lembra de como era pra fazer? de como eu falei que era pra fazer logo que saisse do trem? vc me imitava: virava de costas e fazia sinal com a mão direita, indicando a escada rolante certa.
Nesse dia, pegamos o Cidade Universitária 7181, logo depois de vc ter comprado sua câmera. Você desceu na Augusta, pois ia na Cavalera trocar uma camiseta que havia comprado para o Joel. Insistiu para que eu fosse junto. Se soubesse que nunca mais a veria, teria ido.
Lembro da sua voz, de como me chamava, com sotaque: “oi, Eriqueta!”. Lembro do dia que disse ser o mais feliz da sua vida, quando havia terminado de legendar o filme. Lembro de como me diverti naquele dia em que estávamos no corredor do CJE, zoando com os nomes das matérias e brincando de adivinhar preços.
Quem me dará um beijo na testa quando eu estiver mal?
Julia, vc nos fará muita falta, sabe?
Póstumo, mas sincero: aquele abraço. Mesmo.
